SEIS

Uma árvore

As duas pontas mais escuras que os arbustos envolventes rodavam quase invisíveis em alternância, a cada fragor vindo das folhas dos salgueiros abaixo, sacudidos pelo vento a imitar a chuva. Há algum tempo que aquelas duas pontas perscrutavam as vertentes suaves do cômoro, buscando alguma cadência de cascos nas durezas do caminho desenrolado adiante, devolvidos nos ecos da encosta. Um uivo longínquo fez estacar as pontas escuras das orelhas, aguardando uma resposta do adiantado da matilha, que veio logo do lado oposto, acima, e muito perto. As orelhas rodaram então para o lado da maior luminosidade, onde se adivinhava um sol encoberto pela névoa que sublimava gotículas no pelo. O vento trouxe ao nariz um odor a raposa misturado com lama, o som de cascos chegou às orelhas do lobo, que desapareceram na vegetação. Encolheu-se no seu esconderijo, esperando que a matilha se dirigisse à sua posição, empurrando-lhe a presa, mas aproximando-se da clareira num movimento de cerco ordenado e lento, como se, entre os pés de tojo pouco mais alto que eles, se montasse um espartilho invisível de mantos lanudos e orvalhados de uma ferocidade contida, mas prestes a desabar sobre o muar e o homem que caminhavam adiante.

Os lobos não andavam, contudo, indetetados. Há muito que a mula os tinha farejado e o homem já os avistara por duas vezes. Ele começara a cantar uma melodia atonal às orelhas da companheira, meia cega de terror pela progressiva proximidade dos demónios que os perseguiam, inclementes. O som da melodia gutural aplacava-lhe o receio e lá iam avançando pelo caminho descendente até se tornar plano, antes de curvar apertado entre duas vertentes mais pronunciadas de uns cômoros baixos. Quando dobraram a curva, esperava-os um lobo de grande porte, de pelo escuro e olhos terríveis, mostrando os dentes ameaçadores, aguardando que o resto da matilha os rodeasse. As presas estacaram, com o caminho assim interrompido, e viram-se rodeados pelos lobos. 

A fera escura adiantada baixara a cabeça e avançava muito lentamente para eles, arreganhando-se num rosnado. O homem palmeou o couro do dorso da mula e segredou-lhe algo na orelha, fazendo-a saltar num arco para adiante e sobre o lobo, que não a conseguiu morder, surpreendido pelo ataque e pisado pelos cascos agudos. Enquanto a mula escapava desembestada, o homem levantou o pé direito e enrolou-o na perna esquerda, e nesse equilíbrio, apertou a orelha oposta com a ponta dos dedos, fazendo uma figa na outra mão com o dedo polegar metido entre os dedos maiores e apontou-a muito direita para o céu, soltando um assobio longo e agudo. Nesse instante, ouviu-se um grande barulho que os envolveu, ribombando forte e vibrante como o mais terrível dos trovões, provindo não das nuvens ou do chão, mas do próprio ar que os envolvia. 

Os lobos caíram por terra, desequilibrados pelo espanto, mas logo se ergueram e fugiram em todas as direções, apavorados. O lobo grande permaneceu abaixado e rosnante, insensível ao fenómeno. Os cascos da mula abriram-lhe um lanho comprido no pelo por trás de uma orelha, e o sangue tingia-lhe o manto escuro de um brilho pastoso. A uns dois passos saltou sobre o homem, que desfez a chave das pernas, juntou as palmas das mãos num aplauso e desapareceu. O lobo ficou a farejar o lugar do sumiço, atónito e desconfiado dos seus sentidos. Quando esqueceu as presas e a caçada, uivou longo, a chamar o resto da matilha fugitiva.

Em cima da árvore, o homem sentia a dor forte na perna do equilíbrio, descendo e subindo à base das costas, e que lhe aparecia quando desenlaçava a armação do gesto de espanto. Encostou-se ao tronco nodoso, segurando-se a um dos ramos por cima da cabeça, aliviando o peso à dormência. Avistou os lobos a juntarem-se ao maior na clareira do caminho, um a um, abatidos pela humilhação do pânico, sendo recebidos com um rosnado, ou mordido aquele mais desafiador ou menos submisso. O homem viu-os afastarem-se ordenados, subindo a encosta do lado oposto aquele para onde fugira a mula. O homem desceu então da árvore para a beira do caminho e com o mesmo gesto palmar das mãos, fê-la desaparecer.

A mula tinha percorrido muito caminho na sua fuga, apesar dos alforges, e o homem foi encontrá-la escondida num lameiro à margem do caminho, entre um renque de lírios. A perseguição tomara-lhe boa parte da tarde. A mula encolheu-se mais aos lírios, sentindo-lhe a aproximação, e ele, percebendo-lhe o pânico latente, começou a assobiar baixinho, parando a alguns passos dela. Continuou a assobiar quando ela levantou a cabeça acima das lanças verdes do seu esconderijo para o fitar, e só parou o silvo calmante quando ela desembaraçou as patas da lama que lhe cobria os boletos, aproximou-se e encostou o pescoço ao seu. Ele sorriu.

Afagou-lhe a crina e deixou-se ficar assim, sentindo-lhe as tremuras irregulares, como se quisesse contar do grande medo experimentado com o cerco dos lobos. Recomeçou a chover miudinho e a tarde findava. O homem segurou na rédea pendente e conduziu a companheira pelo caminho, até a um bosque de árvores baixas. Transferiu os alforges da mula para um ramo grosso de um carvalho baixo de tronco largo, retirou-lhe os arreios e deixou-a a pastar livremente fora da copa das árvores. Anoiteceu quase imediatamente.